sábado, 4 de novembro de 2017

Um livro e a biblioteca inclusiva no Centro de Reabilitação de Areosa




No dia 18 de Outubro de 2017, apresentei o meu livro “Bia por um triz” no Centro de Reabilitação da Areosa no âmbito de um workshop dedicado à bengala Branca.

Foi neste Centro de Reabilitação de Areosa que reaprendi a lidar com a minha deficiência visual. Aqui me deparei com uma realidade: eu não era a única a sofrer de baixa visão.


Quando optamos por reescrever a nossa história, precisamos de também ouvir e conhecer histórias reais de pessoas que lutam e prosseguem a sua vida social e profissional, apesar da sua cegueira, seja esta cegueira na forma progressiva ou total.


Quando me conscientizei de que não era a única nesta luta com a deficiência visual, ouvindo as experiências de vida dos outros que também vivem e sentem o que é a perda da visão na sua vida, e partilhando, sem tabus, a minha história e dificuldades no dia a dia, com a minha deficiência visual, penso que foi um dos meus mais importantes passos que dei no processo da minha readaptação.


E nesse dia da apresentação do meu livro, tive novamente a oportunidade de conhecer outro exemplo de como é, na vida real, este readaptar, diante de uma deficiência visual.


Eu não era a única convidada para falar neste dia.

Aliás, ainda antes da minha apresentação, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente a outra convidada que iria falar naquele dia, a Dra. Susana Vale, cega total, que trabalha atualmente na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Gaia, mais especificamente, é ela uma das responsáveis do Serviço de Leitura Especial desta mesma biblioteca. Este Serviço de Leitura Especial - Gaia Inclusiva está acessível a todo Portugal na distancia de um email ou contacto telefónico. 


Por meio deste serviço de Leitura Especial, as pessoas com deficiência visual, como eu, têm a oportunidade de ter acesso a áudio ou outra forma mais adequada, para continuar a ler livros, sejam de que tema for. Desde livros de romances a livros de receitas, de livros de poesias a livros históricos, enfim, uma biblioteca de oportunidades de leitura em formato acessível conforme as necessidades e possibilidades de cada um.


Para além do acesso a livros, semanalmente existe um momento de poesia que é partilhado por email com áudio disponível e acessível em vários formatos. Posso dizer que este poema em áudio me tem proporcionado um ótimo momento de relax ao fim de semana porque a poesia é sempre uma oportunidade para ganharmos asas para além da nossa própria realidade, e também assim conhecermos os sentimentos de um poeta que na verdade fala também um pouco do que vive todo o ser humano pela rima ou não rima.


Quando começamos a cegar, pensamos que tudo à nossa volta deixa de rimar e de ter sentido. Na poesia da vida, por vezes as frases não rimam umas com as outras. Aliás, há quem diga que os melhores poemas são os que não rimam, ou cujas as rimas não estão ali milimetricamente colocadas.

A baixa visão é uma daquelas poesias que, a princípio, não rimam. Porém, como qualquer poesia, é preciso trabalhar nas palavras para que elas cantem vários tons, como que um músico a compor uma melodia.


Viver com a baixa visão é trabalhar todos os dias na readaptação porque a baixa visão, por vezes, está em progressão. No meu caso, por exemplo, nem sempre vejo as coisas da mesma maneira, às vezes mais focadas, outras vezes não. Quando a cegueira ainda não é total como no meu caso, lidar com esta perda gradual exige uma contínua readaptação a cada dia, a cada situação, porque a vista vai perdendo aqui e ali, certas potencialidades, e temos de estar preparados para estas perdas.


A meu ver, é muito importante fazer esta distinção entre a cegueira total e a baixa visão. São identidades diferentes porque exigem atitudes diferentes da parte dos deficientes visuais no seu dia a dia.


Enquanto que um cego já não vê nada e só tem de contar com os demais sentidos, a pessoa com baixa visão, ainda pode utilizar o resto de visão que ainda detém, porém, ao mesmo tempo precisa ir compensando a perda visual com os outros sentidos.


À medida que cegueira progride, mais e mais a pessoa com baixa visão irá necessitar de fazer um reprocessamento de tudo o que supostamente ainda vê.

Baixa visão é uma espécie de escalada até a cegueira total. Nesta escalada, a cada passo, menos vemos o que ficou para trás. Só nos resta subir, sentir sem visão, perceber sem ver.


Deixo abaixo mais pormenores sobre o Centro de Reabilitação da Areosa e a Biblioteca Municipal de Gaia – Serviço de Leitura Especial, para quem possa estar interessado em mais pormenores sobre estes serviços, e porque não, para ser divulgado entre os nossos conhecidos, para que mais pessoas que têm a mesma deficiência que eu, possam ser ajudadas a lidar com a baixa visão no seu dia, e também  continuar a ler bons livros, pois a vida não acaba com a baixa visão, antes prossegue de uma maneira totalmente nova.


E por falar em livros, ao final da apresentação, a Dra. Susana Vale solicitou-me para que também o meu livro "Bia por um Triz" fizesse parte da Biblioteca Municipal de Gaia - Serviço de Leitura Especial, o que foi uma honra para mim e ainda mais que em breve, também o meu livro "Bia por um triz" poderá ser lido por pessoas com deficiência visual.


A história da minha gata Bia também é parte da história da minha experiência com a baixa visão, que aos poucos fui descobrindo e fazendo parte do meu percurso de adaptação.

No próximo artigo irei partilhar um pouco mais em pormenor de como uma gata de rua foi capaz de me ajudar na aceitação da minha deficiência visual.



Neste artigo deixo publicamente um agradecimento muito especial ao Centro da Reabilitação de Areosa e à Dra. Susana Vale. Mais uma vez, aqui aprendi que ainda há muito a se fazer e a prosseguir, apesar da deficiência visual. 



Gaia Inclusiva – Serviço de Leitura Especial
Biblioteca Municipal de Gaia

O espaço da Gaia Inclusiva – Serviço de Leitura Especial da Biblioteca Municipal de Gaia é uma entidade produtora e difusora de materiais de leitura em formatos acessíveis: áudio, braille e digital. Para além dos deficientes visuais, idosos, acamados e incapacitados físicos podem aceder a este serviço, pelo que devem contactar esta entidade para saber mais pormenores sobre o que é necessário para os obter. Eis alguns dos seus serviços: Leitura presencial, Empréstimo domiciliário, Leitura em voz alta, Digitalização, Gravação de Audi livros disponibilizados em CD (formato wave ou MP3), Edição da "Comunicar" - Boletim Digital e Dinamização cultural. Para mais informações deixo aqui os contactos:

Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia
Rua de Angola
4430-014 Vila Nova de Gaia
Geral: 223745670
Direto: 223745676
gaiainclusiva@cm-gaia.pt
Facebook: Biblioteca Municipal de Gaia
(Estes dados foram consultados no site da Câmara Municipal de Gaia no seguinte link:

O Centro de Reabilitação da Areosa, serviço do Instituto de Segurança Social, I.P., Centro Distrital do Porto, fica situado na Rua D. Afonso Henriques, 549, 4435-005, Rio Tinto. A sua Unidade de Reabilitação Funcional de Adultos é dirigida para ajudar as pessoas com deficiência visual adquirida, com cegueira ou ambliopia, com idade superior a 16 anos, do Norte do País.  Toda a intervenção desenvolve-se através do treino de técnicas específicas de Mobilidade, Braille, Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (com utilização de software específico para o PC Jaws, Abby Fine Reader e para o telemóvel), Actividades de Vida Diária.
Mais informações podem ser consultadas em:


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Um convite especial



No âmbito da comemoração do dia da “Bengala Branca”, fui convidada para apresentar o meu livro “Bia por um Triz” no Centro de Reabilitação de Areosa no próximo dia 18 de Outubro de 2017, entre as 10h e as 12h. 


O Centro de Reabilitação da Areosa é um serviço do Instituto de Segurança Social, I.P do Centro Distrital do Porto sito na Rua D. Afonso Henriques, 549 em Rio Tinto. Este centro de reabilitação tem uma Unidade de Reabilitação Funcional de Adultos, onde, há cerca de dois anos, reaprendi a lidar com a minha deficiência visual progressiva.

Ali, conheci profissionais especializados que se interessaram pela minha história e me proporcionaram uma porta aberta para uma nova realidade, uma nova opção e um novo caminho.

Por vezes, quando temos uma deficiência visual, parece que parar é o melhor caminho.

No entanto, ver e não ver, parece complexo, mas não intransponível.

Foi aqui que também me falaram pela primeira vez da bengala verde.


E assim, fui reencontrando a minha mobilidade, conseguindo sair à rua e aos poucos, reencontrando a minha autonomia.

Neste centro encontrei pessoas com deficiência visual adquirida, com cegueira ou ambliopia, com doenças visuais como a minha, ou então, com outras tantas patologias visuais que até então desconhecia completamente.

Por vezes, é preciso ouvir os outros, conhecer as suas histórias para melhor compreender a nossa própria história.

Ninguém nasce ensinado. Aliás, só aprende quem deseja aprender e reaprender.


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A minha gata Bia e a superação da deficiência visual...


Quando me disseram que iria ficar cega, a princípio passei por um momento de “negação”. Porém, com o tempo, deparei-me com os primeiros sintomas da doença visual a progredir, que me fez passar por um estágio de “choro” a que chamei luto. Sim, o luto da visão que estava a morrer em mim.

Foi nessa altura que adotei a minha gata Bia. Algumas pessoas parecem rir quando digo que a minha gata Bia me ajudou a superar a deficiência visual.


Aliás, já me disseram que eu até ultrapassei as fases desta perda de uma forma rápida e que há pessoas que não passam do primeiro estágio da negação.

Cada caso é um caso e neste blogue partilho apenas a minha experiência de vida.

Uma das coisas que senti, quando o médico me disse que ia ficar cega, foi uma tendência para achar que agora toda aquela situação me iria condicionar a vida para sempre.

E realmente, após uma deficiência visual, a vida que antes tínhamos tem de ser renovada a partir de nós mesmos.


Por mais que queiramos fingir que aquilo não nos está a acontecer, o melhor que fiz foi quando assumi que era deficiente visual e ponto final.

Sim, ainda chorei muitas vezes diante da morte da minha visão porque a morte dos meus olhos ocorria rapidamente, sem data previsível para o enterro, pois esta data poderia ser daqui a algumas semanas como daqui a alguns anos.

E depois o que vou fazer, quando ficar cega?

A resposta mais fácil diante de tudo isso, é tentar esconder-me no meu mundo de quatro paredes da minha casa e me sentir a pessoa mais injustiçada da face da terra. Será que vale a pena a vida que ainda me resta?

Esses pensamentos foram os primeiros que inundaram a minha mente diante do primeiro impacto que a progressiva cegueira causou na minha vida.

Mas depois eis que de manhã, quando não queria sair da cama, a minha gata Bia vinha até mim, a miar… E não apenas a Bia, mas também a Lady (a gata Lady ainda estava viva na altura) e depois o Jordan …


Quando adotei a Diana Riscas, ainda mais que esta gata é tão faladora, então é que me apercebi de algo muito importante que ainda não tinha notado.


Aos poucos, fui voltando a ter atividade na minha vida, porque senti que à minha volta alguém ainda precisava de mim.

Os gatos precisavam que eu cuidasse deles. O meu marido precisava que eu cuidasse dele. Os meus canários precisavam que eu cuidasse deles…


Cuidar, eis uma das palavras que fazem mover uma deficiência e coloca-la no seu lugar.

Digo que é uma das palavras, porque aos poucos irei partilhar neste blogue as quatro palavras que têm me ajudado nesta minha luta a viver para além da deficiência visual.

Parece fácil assim dizer, que são apenas quatro palavras, mas estas palavras devem estar ligadas a atitudes e estas atitudes não são fáceis de fazer quando iniciamos esta luta com a deficiência visual…

Deve-se dar um passo de cada vez, dia após dia...

Mas é preciso sairmos de nós mesmos. Não nos podemos fixar em nós mesmos!

Por isso, quando deixei de me olhar para mim, e comecei a olhar para o que os outros que ali estavam ao meu lado precisavam, foi como que uma alavanca que todos os dias me arranca do pasmo e da insegurança.

Por exemplo, na passada semana quando fui ao programa "Juntos à tarde" na TV SIC em Portugal, se eu pensasse em mim, apenas em mim e na minha limitação como deficiente visual, não conseguiria ir ali e ser entrevistada em direto.


O frio que senti na barriga, aquele nervoso miudinho… Ah, como vou conseguir falar num programa de televisão? Será que vou gaguejar? Será que vou falar alguma palavra mal?

Mas vou!

Vou, pela Bia e pela sua história. Porque os gatos de rua merecem ser adotados, mesmo sendo adultos.


Vou, porque preciso expor a todos que a Bengala Verde pode ser um sinal de distinção para os que sofrem de baixa visão. 

Vou, porque preciso falar do que é a baixa visão e da minha doença que é apenas uma em tantas outras que causam a baixa visão em milhões de pessoas em todo o mundo.


Vou porque não posso ficar inerte com o meu livro “Bia por um triz” escondido, pois ele precisa ser lido, para que a mentalidade que as pessoas ainda têm dos gatos seja mudada.

Sei que é um simples livro, e o que eu digo aqui são simples palavras.

Não estou aqui a dar conselhos a ninguém sobre o que deve fazer...

Aqui apenas falo da minha experiência pessoal, repito mais uma vez.

Para mim, pensar que outros precisam de mim foi o primeiro passo para seguir em frente.

Estes “outros” podem ser pessoas, animais ou até uma planta…


Cuidar de uma planta, todos dias, também requer um cuidado diário.

Tenho plantas em casa que são também seres que necessitam que as regue, que as mude de lugar de vez em quando, enfim, há que cuidar do que nos rodeia.

E cuidar da Bia foi uma partilha que virou uma história “Bia por um triz”.

É possível um gato nos ensinar a recomeçar?


Sim, quando estamos atentos ao que se passa à nossa volta e fazemos esta pergunta:

Onde e quem precisa de mim à minha volta, na minha casa, na minha cidade, no meu quarto?

Não precisamos ir muito longe…

Tenho certeza, que ali, mesmo ao teu lado… está alguém que precisa nem que seja que lhe dês um sorriso… Ou nem que faças apenas uma oração, com o seu pensamento positivo pois se somos o que pensamos, então temos de acreditar que é possível fazer grandes mudanças com mudanças de pensamentos e a partir dos pequenos gestos no dia após dia…

Um passo de cada vez...

Um dia de cada vez...


E pensam que paro por aqui? Já tenho uma outra entrevista na TV, nos próximos dias para falar do meu livro, que depois irei revelar quando tudo estiver confirmado. 

E no dia 14 de setembro de 2017, pelas 19 horas, vou estar na Feira do livro no Porto a autografar o meu primeiro livro "Bia por um triz" e com a minha bengala verde sempre a meu lado.


Obrigada a todos que já adquiriram o livro e que por mensagem por facebook ou para o email partilharam o que sentiram ao ler o livro. 

Aqui deixo um agradecimento muito especial aos meus amigos que compareceram na Apresentação do livro no dia 26/07/2017 na Chiado Café Editora no Porto.

E ainda deixo aqui um agradecimento muito especial à minha terra de origem de coração - Sanfins do Douro - onde o meu livro, todos os dias, desde o lançamento está a ser lido e adquirido, pois há uma outra palavra que nos ajuda a avançar na deficiência visual - APOIO - da família, dos amigos, da terra que te ama e que te aceita desde sempre, e isto sim é reabilitar concretamente um deficiente  visual. Mas este tema deixo para o meu próximo artigo.

Obrigada aos que me perguntaram sobre a bengala verde via facebook após a minha entrevista na SIC.

Se ainda não viu, convido-te a ver e ouvir a entrevista completa feita por mim, Rosária Grácio, no programa "Juntos à tarde" no dia 14/08/2017, com os apresentadores Rosária Grácio e Rita Ferro Rodrigues em 

sic.sapo.pt/Programas/juntos-a-tarde/historias-de-4-patas/2017-08-14-Historias-de-4-Patas---Livro-Bia-por-um-Triz.mp4

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Bengala Verde – Ver de novo… Ver de outra maneira…




Na passada segunda feira, dia 14 de agosto de 2017,  estive na TV SIC a divulgar o meu livro “Bia por um triz” e aproveitei para usar a minha Bengala Verde, e assim também partilhar com a multidão de pessoas que veem aquele canal televisivo o porquê de muitas vezes, nós baixa visão, sermos discriminados quando somos confundidos com os cegos totais.

Foi tão pouco tempo para falar de tantas coisas, contudo, penso que usei aquele pouco tempo ao máximo que pude, e de uma maneira firme, porque nem sempre podemos ter uma oportunidade como esta.


Por isso, nem tudo foi dito acerca da bengala verde…  Seriam precisos muitos mais minutos para expor um pouco mais sobre a origem da "Bengala verde", e outros casos como eu, porque infelizmente, quem tem baixa visão não são tão poucas pessoas como se julga.


Aliás, após o programa fui contactada por algumas pessoas que padecem da minha doença e para elas, usar uma bengala com uma cor que as diferencie dos cegos poderá ser a sua maneira de se libertar dos preconceitos e finalmente sair de casa.


Segundo o Programa Nacional para a Saúde da Visão, estima-se que só em Portugal, serão cerca de 35.000 pessoas, que estão a sofrer de baixa de visão devido a várias doenças. 
(Dados consultados em www.retinaportugal.org.pt/bv)


Estou a falar aqui de uma real situação de deficiência visual que atinge grande parte da população em Portugal. Se também falarmos em termos de números mundiais, a quantidade de pessoas afetadas aumenta de forma assustadora.


Igualmente, não há tempo para falar-se em conscientização, pois a vida apressada dos dias de hoje guia-se mais pela rapidez do que pela ponderação.  É preciso que haja um sinal fácil de propagar ao público em geral, acessível às pessoas, independente da sua cultura e apesar da precariedade económica pois comprar uma simples bengala não é muito caro.


Uma simples bengala verde poderá ser apenas uma maneira fácil de atingirmos todos estes objetivos sem grande esforço.

Mas muitos perguntam:
 - Por quê na cor verde?


Uma das coisas que soube da origem da bengala verde que mais me entusiasmou foi o facto da cor verde utilizada na bengala prender-se não só pela cor verde ser associada à esperança. Sim, nós baixa visão precisamos ter esperança e esta bengala verde é muito mais do que uma simples bengala na cor verde … Mas a bengala verde não é da cor verde só por causa disso!

Esta bengala verde também nasceu de uma vontade de “ver de novo” ou “ver de outra maneira”!

Sim, a bengala é “verde” porque significa ver de novo” ou ver de outra maneira”.

Porque Ver de novo” ?

Sim, é necessário que nós, que sofremos de baixa visão, possamos encontrar maneira de ver de novo” o mundo à nossa volta. Mesmo que a vista nos falte e nos condicione, nunca nos podemos deixar condicionar por esta limitação. Aliás, esta limitação pode até nos condicionar em algumas formas de fazer e viver, mas o primeiro passo nesta luta é aquele reencontrar do “ver”


Sim, é possível ver de novo”, e a bengala verde irá ver por nós. 

Claro que até podemos dizer que se formos acompanhados por alguém a nosso lado, até nos desenrascamos… E se tiver um apoio de um guarda-chuva ou de um carrinho de compras, até podemos fingir que ainda vemos as coisas… Mas, no meu caso pessoal, foi através da bengala verde, que eu finalmente deixei-me destes subterfúgios e saí de casa.


Ainda na passada semana, no mesmo programa “Juntos à tarde” na Sic, os deficientes visuais entrevistados revelaram que o maior obstáculo para nós deficientes visuais são as limitações colocadas pela sociedade que nos rodeia.
(Ver em sic.sapo.pt/Programas/juntos-a-tarde/a-conversa/2017-08-10-A-Conversa-sem-tabus---Deficientes-Visuais )

Sim, quando saímos à rua com a nossa bengala, ouvimos certos comentários, na maioria das vezes, sem má intenção mas infelizmente são estes comentários provenientes da falta de conhecimentos que nos leva a retrair e até negar usar uma bengala para que "as pessoas não pensem que andamos a fingir de ceguinhos” pois “ainda vê qualquer coisa, não é, então porque usa a bengala?" 

Ah, existem óculos e operações à vista e até parece que andamos aqui a fugir da cura e que preferimos andar de bengala quando na verdade até "vemos qualquer coisinha"…

Contudo, essa “coisinha que ainda vemos” é a que nos faz esbarrar e tropeçar nas coisas, que nos faz passar pelas pessoas sem as cumprimentar, que nos faz deixar cair a chave no chão e a perdermos de vista, que nos faz cair num buraco que afinal não vimos, ou que nos faz colocar as coisas no local errado, tropeçar nas crianças e animais que correm pela calçada…e então quando isso nos acontece, ouvimos do outro lado palavras de recriminação como “não vê por onde anda? “ ou  “Vê se tem atenção para não andar a tropeçar aqui e ali e se magoar ou magoar os outros…


Enfim, por esta altura, perguntamo-nos, afinal, de que adianta andarmos a fingir que não precisamos da bengala, porque afinal de contas, precisamos mesmo dela e é a própria sociedade que nos recrimina quando não a usamos!

Por isso, quando o programa “Juntos à tarde” aceitou  entrevistar-me e coloquei-lhes que poderia também falar da “Bengala Verde” fiquei grata por aquele espaço televisivo estar assim aberto a nos ajudar nestes pequenos passos de superação da nossa deficiência.


Sim,  só depois de saber o que significa a bengala verde para nós, Baixa Visão, é que finalmente saí de casa e continuo a manter a minha autonomia, como por exemplo, ir à SIC, ao Programa "Juntos à tarde", ser entrevistada pelos apresentadores João Baião e Rita Ferro Rodrigues, sem medo de tropeçar nos corredores e nos fios que estão no chão devido às câmaras que lá estão…

Deixo aqui o momento mais especial deste dia para além de tudo que ali vivi com tanta intensidade…

Ainda nem tinha entrado para ser entrevistada e ao fundo do corredor ouço a voz do apresentador João Baião a chamar-me: Rosária Grácio e a Bengala Verde!!!

E depois recebo um abraço apertado com enorme carinho! Desde aquele  momento percebi o quão importante é falar que existe uma bengala verde para quem sofre de baixa visão…

Sim, é possível por meio da bengala verde "ver de outra maneira" tudo o que nos acontece.


Assista a entrevista que fiz no programa "Juntos à tarde" em 
sic.sapo.pt/Programas/juntos-a-tarde/historias-de-4-patas/2017-08-14-Historias-de-4-Patas---Livro-Bia-por-um-Triz.mp4

Para mais informações sobre a origem da Bengala Verde convido-lhe a ler este artigo do meu blogue:
vercombengalaverde.blogspot.pt/2017/06/por-que-bengala-e-na-cor-verde-uma-das_15.html

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Ver cada vez menos a cada dia… Viver cada vez mais a cada dia…




Um dos sentimentos que mais acompanha quem tem baixa visão é esta constante expectativa de estar à beira de um grande precipício que é a cegueira.

Quando me diagnosticam a minha doença visual, só me deram uma certeza: um dia poderei ficar cega.

Na altura, não tinha a mínima ideia de como se processaria esta tal cegueira. A visão límpida que tinha na altura não agoirava qualquer futuro menos promissor …

Sim, conheci casos na minha família de cegueiras que se apresentaram galopantes.

Alguns médicos até me diziam que eu iria ter visão até os 100 anos.

Estava a ser monitorada anualmente, e os exames demonstravam que a minha retinose era atípica, ou seja, que dificilmente ela se desenvolveria e eu ficaria cega.

Então, em meados de 2011, foi-me diagnosticado um cancro na tiróide.

Passado um ano, submeti-me a um tratamento por iodo radiotivo.

Ainda, durante o internamento do iodo radiotivo, senti a visão dupla.

Coincidência ou não, lembro-me que foi a partir dessa altura que comecei a sentir dificuldades com a luz.


No trabalho, cheguei a zangar-me com os meus colegas por eles quererem as janelas abertas nos dias de sol.

Comecei a ficar intolerante à luz.

Comecei a ver flaches de luz na minha vista cada vez mais fortes.

Sentia-me cada vez mais impaciente diante das luzes, barulhos e multidões.

No início, o diagnóstico de que a minha Retinose Pigmentar tinha despertado não foi fácil de admitir ao meu médico oftalmologista.

Por vezes, nem sempre é fácil admitirmos que a ciência desconhece ainda muito das patologias que atingem o ser humano.

Uma destas doenças tem o nome de Retinose Pigmentar.

Esta doença manifesta-se de muitas maneiras e parece-me que ela se especializa de pessoa a pessoa.

O que eu vivi e senti pode não ser da mesma maneira que outro possa viver e sentir no eclodir da Retinose Pigmentar.

Uma coisa é certa, o melhor é aproveitar a visão, dia após dia.

Pois a incerteza faz parte da vida humana.

E não é porque tenho Retinose Pigmentar que a incerteza será maior.

Talvez, o que a Retinose Pigmentar traz é mais obstáculos dia após dia.


Ver cada vez menos a cada dia significa que tenho de viver cada vez mais a cada dia…


(Ouça abaixo o texto acima narrado pela autora Rosária Grácio)