quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Movimento Bengala Verde chega a Portugal


Nesta semana, a ARP - Retina Portugal começou a divulgar publicamente o projeto “Bengala Verde” que finalmente vem para Portugal.

Esta Bengala Verde não é apenas uma bengala na cor verde. Esta bengala deseja levar a público um tipo de deficiência visual que infelizmente é confundida com a cegueira total e por causa disso mal compreendida.

Aliás, muito se fala de cegueira, mas só após a movimentação de vários grupos realmente interessados em todos os deficientes visuais, é que começaram a surgir vários movimentos em todo o mundo com o nome de “Bengala Verde”.

A “Bengala Verde” surgiu há cerca de 20 anos na Argentina por iniciativa de uma professora que lidava com deficientes visuais.

Sim, só quem tem baixa visão ou quem vive e trabalha todos os dias com deficientes visuais é que é capaz de perceber esta dificuldade de quem tem baixa visão ao usar uma bengala que comumente é aceita como bengala para cegos totais.

Eu mesma quando usava a bengala branca tinha esta impressão de estar a usar uma bengala que não se adequava ao meu tipo de deficiência visual.

Foi a partir de uma bengala na cor verde que finalmente a identidade de quem não é completamente cego começou a ser falado na comunicação pública. Até então, os que não eram completamente cegos ou usavam uma bengala e assim assumiam-se como cegos sem o serem, ou então, acabavam por não usar a bengala, limitando-se cada vez mais no seu dia a dia até atingirem a cegueira total.

Quando o meu professor de mobilidade me apresentou a Bengala Verde no Centro de Reabilitação de Areosa, identifiquei-me de imediato com esta bengala porque afinal, havia uma bengala que comunicava corretamente a minha deficiência visual.

Finalmente, durante esta semana, o projeto da bengala verde foi visitando vários programas televisivos e de rádio, bem como notícias em jornais conceituados como o “Mundo Português”.

Há quem diga que isto de cor, não importa. Mas sim importa que haja uma mesma cor a ser normalizada em todo o mundo porque quem tem baixa visão, tem o direito de ir e vir, seja em que lado do mundo esteja ou vá, sem que tenha de mudar a cor da sua bengala.

Se já há uma bengala verde a ser utilizada em vários países da América Latina, há que multiplicar esta ideia por todo o mundo, o que esta semana entrou em Portugal estando agora prestes a invadir a Europa e assim, despertando as consciências acerca desta distinção entre cegueira e “baixa visão”.

Sim, penso que sempre haverá quem não goste desta ideia de haver bengalas que identifiquem cegos e baixa visão. Mas sinceramente não percebo o porque deste receio, pois isso de dizer-se que se é apenas cego, e mais nada, até pode ser mais cômodo, porém, num mundo em que as diferenças cada vez mais se exprimem e assumem identidades, é realmente imprescindível que as pessoas com baixa visão possam usar uma bengala sem que isso as identifiquem erradamente como cegas.

Para mim, a bengala verde é a minha identidade de “Baixa visão” que assumo sem complexos. E ao usar uma bengala que não me confunda com os cegos totais também estou a ter o maior respeito pelos cegos totais pois estes merecem que a sua identidade também seja preservada.

Neste dia chamado “Movimento Bengala Verde” de 13 de dezembro de 2017 começou às 08:30hs da manhã no Parque das Nações e espera chegar a quem de direito se preocupe com quem sofre de “Baixa visão” e possa se unir à ARP – Retina Portugal nesta desmitificação da cegueira e da baixa visão.

Tens baixa visão e gosta deste projeto “Bengala Verde”?

Então assuma esta bengala pois só assim poderemos mudar estes preconceitos associados a quem tem baixa visão de usar uma bengala sem complexos.

Temos direito de manter a nossa mobilidade e a nossa liberdade!
Apoie e junte-se a nós!

Para ouvir este texto clica no seguinte link
https://soundcloud.com/user-715341459/movimento-bengala-verde-chega-a-portugal


Se apoias o “Movimento Bengala Verde” convido-te a conhecer melhor a ARP - Retina Portugal
Rua Quinta do Cabrinha, 7C/D
1300-906 Lisboa
Tel.: +351 213 660 167
Tlm.: +351 965 250 453
secretaria@retinaportugal.org.pt

Saiba mais sobre a criação da “Bengala Verde” nesta publicação no jornal ”Mundo Português”

Sobre a autora Rosária Grácio



Rosária Grácio nasceu em 1965 em Angola. Desde criança manifesta interesse por ler e escrever histórias, e igualmente dedica-se à pintura e ao desenho artístico. Com apenas seis anos, ganha o Concurso de Natal de 1971, promovido pela Petrangol em Luanda, na Modalidade “A Melhor Carta ao Menino Jesus”. 


Em Portugal, desde 1990, realizou várias exposições de pintura especialmente por terras transmontanas de 1991 a 1999. Para cada um dos seus quadros, Rosária Grácio, sempre fez questão de lhes anexar um breve poema que a autora considera ser a alma e a personalidade das suas obras. Para alguns desses poemas, Rosária Grácio tem feito pequenos filmes com as imagens das respetivas obras no seu canal do Youtube - www.youtube.com/c/RosáriaGrácio.


Em 2015, licenciou-se em solicitadoria. Por essa altura, por causa de uma deficiência visual progressiva optou por voltar a colocar a arte em sua vida.

Com o marido Paulo Caetano nasce o Gráccio Caetano Atelier, realizando duas exposições de pintura em 2016 no Porto. A pintura Gráccio Caetano tem um caráter tridimensional, permitindo que seja também tocada por pessoas com deficiência visual. Os seus trabalhos podem ser melhor conhecidos em www.gracciocaetano.com.


Atualmente, Rosária Grácio também se dedica a escrever histórias, baseadas em experiências pessoais, porque a vida é sempre a melhor contadora de histórias.

Em julho de 2017 publica o livro “BIA POR UM TRIZ”, uma história baseada em factos reais, mais precisamente, a partir da história de uma das gatas da autora: Bia. Aliás, a Bia foi o modelo usado para as ilustrações feitas por Gráccio Caetano para este livro. 


Para desmitificar muitos dos mitos que ainda existem sobre a personalidade dos gatos, Rosária Grácio também criou um blogue dedicado à "Bia por um Triz" - livrobiaporumtriz.blogspot.pt - onde partilha um pouco da convivência com os seus gatos em sua vida. 


Na vertente da poesia, um dos meus poemas foi selecionado para fazer parte da Antologia de Poesia "Entre o Sono e o Sonho" - Volume 8 – 2017, da Chiado Editora, cuja a apresentação se realizou no dia 30 de setembro de 2017 no Teatro Tivoli BBVA em Lisboa. O poema selecionado tem o título de "Nas ruas virtuais da solidão…"  onde a autora colocou um pouco do que é o sonho em mãos que avançam ou que se deixam parar pelo sono. Este poema foi escrito há cerca de dois anos, quando me deparava com esta luta diária na readaptação à sua deficiência visual progressiva.

Para além da poesia e de histórias para crianças, a autora Rosária Grácio também tem vários escritos que aos poucos serão colocados neste blogue e alguns deles serão publicados no seu canal de Youtube em formato de pequenos filmes.

Para saber mais sobre a deficiência visual de Rosária Grácio conheça o seu blogue - vercombengalaverde.blogspot.pt - onde a autora partilha um pouco das suas dificuldades como deficiente visual. 







Eu uso Bengala verde





Hoje a Associação da Retinopatia de Portugal, fará uma apresentação pública nas ruas de Lisboa sobre a bengala verde. 

Eu não pude estar presente por razões de saúde mas desde já convido a todos a acompanhar todos os acontecimentos de hoje no decorrer deste grande dia. Eu uso bengala verde!!!! 

E se apoias esta ideia e estás em Lisboa vai para as ruas e junta-te a esta manifestação!!!!!


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Pra quê ao vivo





Será que a cegueira impedirá alguém de se dedicar às artes?  

Sara Bentes mostrou-me que é possível e esta música é exactamente o que eu, como baixa visão vivo e sem complexos, pois é possível viver e se readaptar mesmo e apesar de estarmos a perder a visão...

sábado, 4 de novembro de 2017

Um livro e a biblioteca inclusiva no Centro de Reabilitação de Areosa




No dia 18 de Outubro de 2017, apresentei o meu livro “Bia por um triz” no Centro de Reabilitação da Areosa no âmbito de um workshop dedicado à bengala Branca.

Foi neste Centro de Reabilitação de Areosa que reaprendi a lidar com a minha deficiência visual. Aqui me deparei com uma realidade: eu não era a única a sofrer de baixa visão.


Quando optamos por reescrever a nossa história, precisamos de também ouvir e conhecer histórias reais de pessoas que lutam e prosseguem a sua vida social e profissional, apesar da sua cegueira, seja esta cegueira na forma progressiva ou total.


Quando me conscientizei de que não era a única nesta luta com a deficiência visual, ouvindo as experiências de vida dos outros que também vivem e sentem o que é a perda da visão na sua vida, e partilhando, sem tabus, a minha história e dificuldades no dia a dia, com a minha deficiência visual, penso que foi um dos meus mais importantes passos que dei no processo da minha readaptação.


E nesse dia da apresentação do meu livro, tive novamente a oportunidade de conhecer outro exemplo de como é, na vida real, este readaptar, diante de uma deficiência visual.


Eu não era a única convidada para falar neste dia.

Aliás, ainda antes da minha apresentação, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente a outra convidada que iria falar naquele dia, a Dra. Susana Vale, cega total, que trabalha atualmente na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Gaia, mais especificamente, é ela uma das responsáveis do Serviço de Leitura Especial desta mesma biblioteca. Este Serviço de Leitura Especial - Gaia Inclusiva está acessível a todo Portugal na distancia de um email ou contacto telefónico. 


Por meio deste serviço de Leitura Especial, as pessoas com deficiência visual, como eu, têm a oportunidade de ter acesso a áudio ou outra forma mais adequada, para continuar a ler livros, sejam de que tema for. Desde livros de romances a livros de receitas, de livros de poesias a livros históricos, enfim, uma biblioteca de oportunidades de leitura em formato acessível conforme as necessidades e possibilidades de cada um.


Para além do acesso a livros, semanalmente existe um momento de poesia que é partilhado por email com áudio disponível e acessível em vários formatos. Posso dizer que este poema em áudio me tem proporcionado um ótimo momento de relax ao fim de semana porque a poesia é sempre uma oportunidade para ganharmos asas para além da nossa própria realidade, e também assim conhecermos os sentimentos de um poeta que na verdade fala também um pouco do que vive todo o ser humano pela rima ou não rima.


Quando começamos a cegar, pensamos que tudo à nossa volta deixa de rimar e de ter sentido. Na poesia da vida, por vezes as frases não rimam umas com as outras. Aliás, há quem diga que os melhores poemas são os que não rimam, ou cujas as rimas não estão ali milimetricamente colocadas.

A baixa visão é uma daquelas poesias que, a princípio, não rimam. Porém, como qualquer poesia, é preciso trabalhar nas palavras para que elas cantem vários tons, como que um músico a compor uma melodia.


Viver com a baixa visão é trabalhar todos os dias na readaptação porque a baixa visão, por vezes, está em progressão. No meu caso, por exemplo, nem sempre vejo as coisas da mesma maneira, às vezes mais focadas, outras vezes não. Quando a cegueira ainda não é total como no meu caso, lidar com esta perda gradual exige uma contínua readaptação a cada dia, a cada situação, porque a vista vai perdendo aqui e ali, certas potencialidades, e temos de estar preparados para estas perdas.


A meu ver, é muito importante fazer esta distinção entre a cegueira total e a baixa visão. São identidades diferentes porque exigem atitudes diferentes da parte dos deficientes visuais no seu dia a dia.


Enquanto que um cego já não vê nada e só tem de contar com os demais sentidos, a pessoa com baixa visão, ainda pode utilizar o resto de visão que ainda detém, porém, ao mesmo tempo precisa ir compensando a perda visual com os outros sentidos.


À medida que cegueira progride, mais e mais a pessoa com baixa visão irá necessitar de fazer um reprocessamento de tudo o que supostamente ainda vê.

Baixa visão é uma espécie de escalada até a cegueira total. Nesta escalada, a cada passo, menos vemos o que ficou para trás. Só nos resta subir, sentir sem visão, perceber sem ver.


Deixo abaixo mais pormenores sobre o Centro de Reabilitação da Areosa e a Biblioteca Municipal de Gaia – Serviço de Leitura Especial, para quem possa estar interessado em mais pormenores sobre estes serviços, e porque não, para ser divulgado entre os nossos conhecidos, para que mais pessoas que têm a mesma deficiência que eu, possam ser ajudadas a lidar com a baixa visão no seu dia, e também  continuar a ler bons livros, pois a vida não acaba com a baixa visão, antes prossegue de uma maneira totalmente nova.


E por falar em livros, ao final da apresentação, a Dra. Susana Vale solicitou-me para que também o meu livro "Bia por um Triz" fizesse parte da Biblioteca Municipal de Gaia - Serviço de Leitura Especial, o que foi uma honra para mim e ainda mais que em breve, também o meu livro "Bia por um triz" poderá ser lido por pessoas com deficiência visual.


A história da minha gata Bia também é parte da história da minha experiência com a baixa visão, que aos poucos fui descobrindo e fazendo parte do meu percurso de adaptação.

No próximo artigo irei partilhar um pouco mais em pormenor de como uma gata de rua foi capaz de me ajudar na aceitação da minha deficiência visual.



Neste artigo deixo publicamente um agradecimento muito especial ao Centro da Reabilitação de Areosa e à Dra. Susana Vale. Mais uma vez, aqui aprendi que ainda há muito a se fazer e a prosseguir, apesar da deficiência visual. 



Gaia Inclusiva – Serviço de Leitura Especial
Biblioteca Municipal de Gaia

O espaço da Gaia Inclusiva – Serviço de Leitura Especial da Biblioteca Municipal de Gaia é uma entidade produtora e difusora de materiais de leitura em formatos acessíveis: áudio, braille e digital. Para além dos deficientes visuais, idosos, acamados e incapacitados físicos podem aceder a este serviço, pelo que devem contactar esta entidade para saber mais pormenores sobre o que é necessário para os obter. Eis alguns dos seus serviços: Leitura presencial, Empréstimo domiciliário, Leitura em voz alta, Digitalização, Gravação de Audi livros disponibilizados em CD (formato wave ou MP3), Edição da "Comunicar" - Boletim Digital e Dinamização cultural. Para mais informações deixo aqui os contactos:

Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia
Rua de Angola
4430-014 Vila Nova de Gaia
Geral: 223745670
Direto: 223745676
gaiainclusiva@cm-gaia.pt
Facebook: Biblioteca Municipal de Gaia
(Estes dados foram consultados no site da Câmara Municipal de Gaia no seguinte link:

O Centro de Reabilitação da Areosa, serviço do Instituto de Segurança Social, I.P., Centro Distrital do Porto, fica situado na Rua D. Afonso Henriques, 549, 4435-005, Rio Tinto. A sua Unidade de Reabilitação Funcional de Adultos é dirigida para ajudar as pessoas com deficiência visual adquirida, com cegueira ou ambliopia, com idade superior a 16 anos, do Norte do País.  Toda a intervenção desenvolve-se através do treino de técnicas específicas de Mobilidade, Braille, Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (com utilização de software específico para o PC Jaws, Abby Fine Reader e para o telemóvel), Actividades de Vida Diária.
Mais informações podem ser consultadas em:


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Um convite especial



No âmbito da comemoração do dia da “Bengala Branca”, fui convidada para apresentar o meu livro “Bia por um Triz” no Centro de Reabilitação de Areosa no próximo dia 18 de Outubro de 2017, entre as 10h e as 12h. 


O Centro de Reabilitação da Areosa é um serviço do Instituto de Segurança Social, I.P do Centro Distrital do Porto sito na Rua D. Afonso Henriques, 549 em Rio Tinto. Este centro de reabilitação tem uma Unidade de Reabilitação Funcional de Adultos, onde, há cerca de dois anos, reaprendi a lidar com a minha deficiência visual progressiva.

Ali, conheci profissionais especializados que se interessaram pela minha história e me proporcionaram uma porta aberta para uma nova realidade, uma nova opção e um novo caminho.

Por vezes, quando temos uma deficiência visual, parece que parar é o melhor caminho.

No entanto, ver e não ver, parece complexo, mas não intransponível.

Foi aqui que também me falaram pela primeira vez da bengala verde.


E assim, fui reencontrando a minha mobilidade, conseguindo sair à rua e aos poucos, reencontrando a minha autonomia.

Neste centro encontrei pessoas com deficiência visual adquirida, com cegueira ou ambliopia, com doenças visuais como a minha, ou então, com outras tantas patologias visuais que até então desconhecia completamente.

Por vezes, é preciso ouvir os outros, conhecer as suas histórias para melhor compreender a nossa própria história.

Ninguém nasce ensinado. Aliás, só aprende quem deseja aprender e reaprender.


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A minha gata Bia e a superação da deficiência visual...


Quando me disseram que iria ficar cega, a princípio passei por um momento de “negação”. Porém, com o tempo, deparei-me com os primeiros sintomas da doença visual a progredir, que me fez passar por um estágio de “choro” a que chamei luto. Sim, o luto da visão que estava a morrer em mim.

Foi nessa altura que adotei a minha gata Bia. Algumas pessoas parecem rir quando digo que a minha gata Bia me ajudou a superar a deficiência visual.


Aliás, já me disseram que eu até ultrapassei as fases desta perda de uma forma rápida e que há pessoas que não passam do primeiro estágio da negação.

Cada caso é um caso e neste blogue partilho apenas a minha experiência de vida.

Uma das coisas que senti, quando o médico me disse que ia ficar cega, foi uma tendência para achar que agora toda aquela situação me iria condicionar a vida para sempre.

E realmente, após uma deficiência visual, a vida que antes tínhamos tem de ser renovada a partir de nós mesmos.


Por mais que queiramos fingir que aquilo não nos está a acontecer, o melhor que fiz foi quando assumi que era deficiente visual e ponto final.

Sim, ainda chorei muitas vezes diante da morte da minha visão porque a morte dos meus olhos ocorria rapidamente, sem data previsível para o enterro, pois esta data poderia ser daqui a algumas semanas como daqui a alguns anos.

E depois o que vou fazer, quando ficar cega?

A resposta mais fácil diante de tudo isso, é tentar esconder-me no meu mundo de quatro paredes da minha casa e me sentir a pessoa mais injustiçada da face da terra. Será que vale a pena a vida que ainda me resta?

Esses pensamentos foram os primeiros que inundaram a minha mente diante do primeiro impacto que a progressiva cegueira causou na minha vida.

Mas depois eis que de manhã, quando não queria sair da cama, a minha gata Bia vinha até mim, a miar… E não apenas a Bia, mas também a Lady (a gata Lady ainda estava viva na altura) e depois o Jordan …


Quando adotei a Diana Riscas, ainda mais que esta gata é tão faladora, então é que me apercebi de algo muito importante que ainda não tinha notado.


Aos poucos, fui voltando a ter atividade na minha vida, porque senti que à minha volta alguém ainda precisava de mim.

Os gatos precisavam que eu cuidasse deles. O meu marido precisava que eu cuidasse dele. Os meus canários precisavam que eu cuidasse deles…


Cuidar, eis uma das palavras que fazem mover uma deficiência e coloca-la no seu lugar.

Digo que é uma das palavras, porque aos poucos irei partilhar neste blogue as quatro palavras que têm me ajudado nesta minha luta a viver para além da deficiência visual.

Parece fácil assim dizer, que são apenas quatro palavras, mas estas palavras devem estar ligadas a atitudes e estas atitudes não são fáceis de fazer quando iniciamos esta luta com a deficiência visual…

Deve-se dar um passo de cada vez, dia após dia...

Mas é preciso sairmos de nós mesmos. Não nos podemos fixar em nós mesmos!

Por isso, quando deixei de me olhar para mim, e comecei a olhar para o que os outros que ali estavam ao meu lado precisavam, foi como que uma alavanca que todos os dias me arranca do pasmo e da insegurança.

Por exemplo, na passada semana quando fui ao programa "Juntos à tarde" na TV SIC em Portugal, se eu pensasse em mim, apenas em mim e na minha limitação como deficiente visual, não conseguiria ir ali e ser entrevistada em direto.


O frio que senti na barriga, aquele nervoso miudinho… Ah, como vou conseguir falar num programa de televisão? Será que vou gaguejar? Será que vou falar alguma palavra mal?

Mas vou!

Vou, pela Bia e pela sua história. Porque os gatos de rua merecem ser adotados, mesmo sendo adultos.


Vou, porque preciso expor a todos que a Bengala Verde pode ser um sinal de distinção para os que sofrem de baixa visão. 

Vou, porque preciso falar do que é a baixa visão e da minha doença que é apenas uma em tantas outras que causam a baixa visão em milhões de pessoas em todo o mundo.


Vou porque não posso ficar inerte com o meu livro “Bia por um triz” escondido, pois ele precisa ser lido, para que a mentalidade que as pessoas ainda têm dos gatos seja mudada.

Sei que é um simples livro, e o que eu digo aqui são simples palavras.

Não estou aqui a dar conselhos a ninguém sobre o que deve fazer...

Aqui apenas falo da minha experiência pessoal, repito mais uma vez.

Para mim, pensar que outros precisam de mim foi o primeiro passo para seguir em frente.

Estes “outros” podem ser pessoas, animais ou até uma planta…


Cuidar de uma planta, todos dias, também requer um cuidado diário.

Tenho plantas em casa que são também seres que necessitam que as regue, que as mude de lugar de vez em quando, enfim, há que cuidar do que nos rodeia.

E cuidar da Bia foi uma partilha que virou uma história “Bia por um triz”.

É possível um gato nos ensinar a recomeçar?


Sim, quando estamos atentos ao que se passa à nossa volta e fazemos esta pergunta:

Onde e quem precisa de mim à minha volta, na minha casa, na minha cidade, no meu quarto?

Não precisamos ir muito longe…

Tenho certeza, que ali, mesmo ao teu lado… está alguém que precisa nem que seja que lhe dês um sorriso… Ou nem que faças apenas uma oração, com o seu pensamento positivo pois se somos o que pensamos, então temos de acreditar que é possível fazer grandes mudanças com mudanças de pensamentos e a partir dos pequenos gestos no dia após dia…

Um passo de cada vez...

Um dia de cada vez...


E pensam que paro por aqui? Já tenho uma outra entrevista na TV, nos próximos dias para falar do meu livro, que depois irei revelar quando tudo estiver confirmado. 

E no dia 14 de setembro de 2017, pelas 19 horas, vou estar na Feira do livro no Porto a autografar o meu primeiro livro "Bia por um triz" e com a minha bengala verde sempre a meu lado.


Obrigada a todos que já adquiriram o livro e que por mensagem por facebook ou para o email partilharam o que sentiram ao ler o livro. 

Aqui deixo um agradecimento muito especial aos meus amigos que compareceram na Apresentação do livro no dia 26/07/2017 na Chiado Café Editora no Porto.

E ainda deixo aqui um agradecimento muito especial à minha terra de origem de coração - Sanfins do Douro - onde o meu livro, todos os dias, desde o lançamento está a ser lido e adquirido, pois há uma outra palavra que nos ajuda a avançar na deficiência visual - APOIO - da família, dos amigos, da terra que te ama e que te aceita desde sempre, e isto sim é reabilitar concretamente um deficiente  visual. Mas este tema deixo para o meu próximo artigo.

Obrigada aos que me perguntaram sobre a bengala verde via facebook após a minha entrevista na SIC.

Se ainda não viu, convido-te a ver e ouvir a entrevista completa feita por mim, Rosária Grácio, no programa "Juntos à tarde" no dia 14/08/2017, com os apresentadores Rosária Grácio e Rita Ferro Rodrigues em 

sic.sapo.pt/Programas/juntos-a-tarde/historias-de-4-patas/2017-08-14-Historias-de-4-Patas---Livro-Bia-por-um-Triz.mp4