sábado, 28 de abril de 2018

Temos de ser médico de nós mesmos!




Quando em 2013, estava à espera de ser atendida no serviço de Urgência de um Hospital, depois de vários médicos me verem, e passar por exames de sangue, raio x e tac, eis que uma senhora de uma certa idade, a idade certa de quem já viveu o suficiente para aprender com a vida, a meio de uma conversa de doentes que esperam os seus veredictos, ali ao meu lado, me disse quase a cochichar no ouvido:

- Vou lhe dizer uma coisa, precisamos dos médicos, sim, dos seus tratamentos, das suas prescrições; mas eles sabem mais dos livros de medicina, enquanto nós é que sabemos do que realmente sentimos. Por isso, temos é de ser médicos de nós mesmos, se nos quisermos ajudar na descoberta do que realmente precisamos para nos sentirmos melhores.

Quando ouvi este comentário “ser médico de nós mesmos” por um instante, achei que isto era um bocado difícil de aceitar nos tempos de hoje, com tantos avanços na medicina, e seus tratamentos e exames cada vez mais sofisticados.

Uma dor de cabeça cura-se com tal comprimido e já está. Se quebrar uma perna, engessa-se e já está! Se tiver algo mais sério, opera-se, tira-se e pronto.

Foi com essa mentalidade confiante nos médicos e na sua medicina, que me deixei rapidamente operar a um cancro na tiróide, quando o que mais me interessava era inscrever-me na faculdade na semana seguinte.

Quando me disseram que eu tinha cancro, pensei que isso de ter doenças assim, com as tecnologias que hoje existem, basta lançarmos-nos nas mãos dos médicos cegamente, e seguir a minha vida em frente, pensar em outras coisas mais importantes, pois a batalha da doença já está ganha.

No entanto, ali estava no hospital, passados alguns meses, a ter sintomas uns quanto estranhos, que os vários médicos, que procurei, não sabiam diagnosticar.

Por vários meses, busquei médicos de vários hospitais, clínicas particulares, viajando quilómetros à procura de uma prescrição ou tratamento milagroso para solucionar o que eu tinha.

Ali estava naquele hospital, com a minha audição alterada, a ver reflexos à minha volta, sentindo-me desequilibrada ao andar, fugindo da luz e de todo o barulho.

E para além disso, por vezes, a incompreensão dos que nos rodeiam, dói  ainda mais… Parece que estamos a fazer fitas:

- Fecha-me a janela que está muita luz aqui dentro! – assim dizia aos meus colegas de trabalho, enquanto estava angustiada, a lidar com algo, que até então não me estava diagnosticado. E eles, riam e julgavam-me meia louca ou com mania de doença.


A luz que eu amava! ... Ah, como gostava da luz do sol, de andar ao ar livre, andar desde as mais frescas horas do dia, admirar este sol magnífico… Mas, agora a luz me cegava, não me deixava ver, e parecia estar a ficar louca, com depressão, com sei lá o que eu tinha, e que os médicos não sabiam explicar…

Foi complicado andar assim, como que às cegas, de médico em médico, e parecia que estava a ter uma crise do tal stress que é sempre o culpado quando não existem diagnósticos científicos mais acertados.

Quando finalmente um médico me disse que poderia estar a perder a visão, que esses sintomas eram os primeiros na progressão de uma cegueira por retinose pigmentar, ousei perguntar:
- E o que posso fazer, tenho de fazer novos óculos, existe tratamento?

Foi então que ouvi a sentença:
- Não, neste momento, só esperar que a progressão da cegueira não seja tão rápida!
- Mas, quando vou ficar cega?
- Não se sabe, talvez daqui a alguns dias, ou meses, ou anos, difícil dizer… apenas que a cegueira vai chegar, sim, algum dia, e nada há a fazer, neste momento…

E assim saí sem nada, a não ser eu mesma. Estava só!


Não acreditei... Deve haver outra resposta médica, outro tratamento… E ainda andei por vários meses, a ir de um lado ao outro, à procura de quem me dissesse que sim, que havia qualquer coisa que pudesse fazer…

Mas não!

Ou talvez sim, com tais lentes amarelas, adquirir os produtos técnicos caríssimos, inacessíveis à maioria de doentes como eu.

Foi então que a sábia frase da tal senhora me foi batendo na cabeça:

“Temos de ser médicos de nós mesmos.”

Isto de ser médicos de nós mesmos, nada tem a haver com esquecermos os médicos e os seus tratamentos convencionais.

Isto de “ser médicos de nós mesmos” vai muito mais além.

Já dizia o filósofo Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo!”

Parece fácil nos conhecermo a nós mesmos, mas é exatamente isso que temos de fazer, quando tudo o que nos parecia sólido e bem seguro, nos começa a cair à nossa frente.

Quando alguém nos diz que a nossa visão tem um prazo de validade incerto, é o mesmo que dizer-nos:
- Qualquer dia, acordas e já não vês nada!

E a primeira coisa que nos vem à cabeça é isto:
 - Então, nada mais importa!


Desistir é sempre a forma mais fácil de prosseguir. 

Quando desistimos, deixamos que outros nos levem. Quando desistimos, somos o que os outros desejam de nós.

- Ah, coitada, vai ficar cega! Não tens sorte! Só te falava agora isso! - Diziam-me alguns conhecidos a quem relatava a minha fatalidade.

Palavras vazias, sentenças de prisão perpétua que se unem à sentença de morte dos médicos já decretada e irrevogável: - Vais ficar cega!

Temos de ser médicos de nós mesmos!

Fazer um autoconhecimento do que somos, do que queremos, do que temos e do que não queremos perder!

Sim, fiz o meu luto, chorei muito e fiz toda a birra que qualquer um tem direito diante das sentenças propostas.

Tenho de ser médico de mim mesma. - Insisto e não desisto!

E foi assim que levantei a página escrita por médicos e amigos da catástrofe iminente, e ousei escrever eu mesma nova página.

Lancei-me eu mesma a desbravar pela net e livros, conhecer outros, como eu, que já andam nestas lidas da cegueira, e que bem sabem do que isto é, no real e concreto do dia a dia.

Sou médica de mim mesma e não desisto!

Posso ficar cega, posso ficar na escuridão das formas e cores, mas sempre há algo a fazer, com este resto que me está ainda nos olhos…

E depois, vê-se, nem que seja com as mãos…


Existem tantos interesses que rondam a atual medicina, com as suas teorias e preconceitos, ditando quem tem direito ou não de viver. 

Bons exemplos disso é o atual caso "Alfie" e a pírula do cancer... Coloco ao fim deste artigo, os links das notícias que se referem a estes casos...

Nestes últimos anos deparei-me com estes e outros tantos casos de diagnósticos e tratamentos, uns convencionais e outros tantos, supostamente dados como não provados cientificamente, mas na vida real,  mais eficazes.

Por vezes, a própria natureza nos oferece a cura, mas há uma tendência comercial que a embala e modifica, para dar mais lucro e causar mais impacto comercial.

Infelizmente, a cura não é rentável economicamente. A doença gera milhões de lucros em exames, tratamentos e medicamentos.

A quem sofre, resta a opção, mesmo que silenciosa.

Tenho eu de ser médica de mim mesma, e optar, ler todas as entrelinhas, e julgar se vale a pena as propostas de tratamento que vou conhecendo aqui e ali.

E quando digo “tratamento” digo apenas, tentar parar a progressão desta cegueira que me come a visão aos poucos, sem ser percetível.

Quando se perde a visão por retinose pigmentar é como fechar a visão de dentro para fora. Quem me vê, nada nota. Apenas eu bem sei o que sinto e vejo, o que passo quando não vejo, ainda tendo de lidar com esta falta de informação acerca da baixa visão e do que a bengala verde vem dizer a esta nossa limitação que ninguém sabe, só nós, que passamos por isso.

Por isso, há que ser médico de nós mesmos!



Atenção: Este artigo reflete a minha opinião pessoal e partilha de vida como deficiente visual.  "Ser médico de nós mesmos" não significa esquecer a medicina convencional ou opor-se a tratamentos. Não tenho interesse em prescrever tratamentos ou dar conselhos médicos. "Ser médico de si mesmo" é um convite ao conhecimento de nós mesmos, aceitando as nossas limitações, não desistindo de lutar, aceitando a readaptação à cegueira progressiva. Para mim, usar a bengala verde foi o meu primeiro passo nesta aceitação. A cada um, fica o direito de opção!

Conforme prometido, deixo abaixo os links que foram indicados neste artigo, mas existem outros, que me interrogam quanto às certezas da medicina... E por isso, não devemos desistir, nem que seja perante diagnósticos irrevogáveis. Porém, cada qual tem a liberdade de optar entre prosseguir ou não!

www.jn.pt/mundo/interior/morreu-o-bebe-alfie-alvo-de-batalha-judicial-pelo-seu-tratamento

pt.aleteia.org/2018/04/27/de-charlie-para-alfie-pais-do-bebe-morto-em-2017-se-solidarizam-com-tom-e-kate/

gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2017/05/como-esta-o-garoto-de-farroupilha-que-lutou-para-tomar-a-pilula-do-cancer-9784215.html

CPI conclui que houve erros graves em pesquisa sobre a pílula do câncer



(Texto e imagens de Rosária Grácio)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Uso a bengala quando preciso!





Ontem fui a uma reunião de condomínio no meu prédio. 

Como a reunião foi feita na entrada do prédio onde moro, que é um espaço que eu já conheço bem, não levei a minha bengala. Ainda mais que estava entre pessoas conhecidas e cientes da minha deficiência visual, desde que ela começou.

Assim eu pensava!

Até que a meio da reunião uma das vizinhas, que me vê quase todos os dias, virou-se para mim e diz-me:

- Vejo que já melhorou da sua visão!

Este tipo de afirmação é só mais uma prova do quanto isto de ter “baixa visão” ou “cegueira” ainda é tão desconhecido da maior parte da população.

É uma questão muito intrigante para quem depende da visão, ver um deficiente visual que use bengala a andar sem esta, de vez em quando.

No meu caso pessoal só necessito da bengala quando vou para espaços desconhecidos e sozinha. Se tiver alguém que me sirva de guia, posso e ando sem bengala.

Tenho “baixa visão” e posso ver algumas coisas e outras não, e nem sempre vou perceber o que se passa à minha volta da mesma maneira. Ter "baixa visão" é uma espécie de lâmpada, que está prestes a fundir-se. Por vezes, dá uma luz mais forte, e outras vezes, não.

Por isso, posso ter mais facilidade em ver em certas alturas, e noutras ocasiões, estar mesmo dependente de toda a ajuda possível pois parece que a luz se acaba e não se vê mesmo nada.

Quando sei que vou para espaços públicos movimentados e sozinha, não prescindo de usar a minha bengala verde que me identifica como deficiente com baixa visão.

Precisar de usar uma bengala ou não, é um direito que me assiste em qualquer situação da vida que julgar pertinente.

Não é porque uso bengala que tenha ou precise de a usar em todos os momentos da minha vida.

Até mesmo, quem é cego total, e já vi isso em muitas situações concretas, em determinados momentos e espaços, não vai necessitar estar sempre com a bengala em uma das mãos.

Aliás, assim como todas as outras pessoas não deficientes visuais que precisam das duas mãos para fazerem as suas atividades diárias, também quem tem deficiência visual necessita ainda mais das suas duas mãos, já que as usa também para perceber melhor os objetos à sua volta, tocando-os.

Por isso, usar ou não usar a bengala não significa que estamos a ficar mais ou menos cegos. 

Significa simplesmente que usamos a bengala quando necessitamos dela pois a bengala é apenas um dos meios que utilizamos para mantermos a nossa mobilidade no dia a dia e nem sempre vamos precisar dela.

(Texto e fotos de Rosária Grácio)


   
  

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Movimento Bengala Verde chega a Portugal


Nesta semana, a ARP - Retina Portugal começou a divulgar publicamente o projeto “Bengala Verde” que finalmente vem para Portugal.

Esta Bengala Verde não é apenas uma bengala na cor verde. Esta bengala deseja levar a público um tipo de deficiência visual que infelizmente é confundida com a cegueira total e por causa disso mal compreendida.

Aliás, muito se fala de cegueira, mas só após a movimentação de vários grupos realmente interessados em todos os deficientes visuais, é que começaram a surgir vários movimentos em todo o mundo com o nome de “Bengala Verde”.

A “Bengala Verde” surgiu há cerca de 20 anos na Argentina por iniciativa de uma professora que lidava com deficientes visuais.

Sim, só quem tem baixa visão ou quem vive e trabalha todos os dias com deficientes visuais é que é capaz de perceber esta dificuldade de quem tem baixa visão ao usar uma bengala que comumente é aceita como bengala para cegos totais.

Eu mesma quando usava a bengala branca tinha esta impressão de estar a usar uma bengala que não se adequava ao meu tipo de deficiência visual.

Foi a partir de uma bengala na cor verde que finalmente a identidade de quem não é completamente cego começou a ser falado na comunicação pública. Até então, os que não eram completamente cegos ou usavam uma bengala e assim assumiam-se como cegos sem o serem, ou então, acabavam por não usar a bengala, limitando-se cada vez mais no seu dia a dia até atingirem a cegueira total.

Quando o meu professor de mobilidade me apresentou a Bengala Verde no Centro de Reabilitação de Areosa, identifiquei-me de imediato com esta bengala porque afinal, havia uma bengala que comunicava corretamente a minha deficiência visual.

Finalmente, durante esta semana, o projeto da bengala verde foi visitando vários programas televisivos e de rádio, bem como notícias em jornais conceituados como o “Mundo Português”.

Há quem diga que isto de cor, não importa. Mas sim importa que haja uma mesma cor a ser normalizada em todo o mundo porque quem tem baixa visão, tem o direito de ir e vir, seja em que lado do mundo esteja ou vá, sem que tenha de mudar a cor da sua bengala.

Se já há uma bengala verde a ser utilizada em vários países da América Latina, há que multiplicar esta ideia por todo o mundo, o que esta semana entrou em Portugal estando agora prestes a invadir a Europa e assim, despertando as consciências acerca desta distinção entre cegueira e “baixa visão”.

Sim, penso que sempre haverá quem não goste desta ideia de haver bengalas que identifiquem cegos e baixa visão. Mas sinceramente não percebo o porque deste receio, pois isso de dizer-se que se é apenas cego, e mais nada, até pode ser mais cômodo, porém, num mundo em que as diferenças cada vez mais se exprimem e assumem identidades, é realmente imprescindível que as pessoas com baixa visão possam usar uma bengala sem que isso as identifiquem erradamente como cegas.

Para mim, a bengala verde é a minha identidade de “Baixa visão” que assumo sem complexos. E ao usar uma bengala que não me confunda com os cegos totais também estou a ter o maior respeito pelos cegos totais pois estes merecem que a sua identidade também seja preservada.

Neste dia chamado “Movimento Bengala Verde” de 13 de dezembro de 2017 começou às 08:30hs da manhã no Parque das Nações e espera chegar a quem de direito se preocupe com quem sofre de “Baixa visão” e possa se unir à ARP – Retina Portugal nesta desmitificação da cegueira e da baixa visão.

Tens baixa visão e gosta deste projeto “Bengala Verde”?

Então assuma esta bengala pois só assim poderemos mudar estes preconceitos associados a quem tem baixa visão de usar uma bengala sem complexos.

Temos direito de manter a nossa mobilidade e a nossa liberdade!
Apoie e junte-se a nós!

Para ouvir este texto clica no seguinte link
https://soundcloud.com/user-715341459/movimento-bengala-verde-chega-a-portugal


Se apoias o “Movimento Bengala Verde” convido-te a conhecer melhor a ARP - Retina Portugal
Rua Quinta do Cabrinha, 7C/D
1300-906 Lisboa
Tel.: +351 213 660 167
Tlm.: +351 965 250 453
secretaria@retinaportugal.org.pt

Saiba mais sobre a criação da “Bengala Verde” nesta publicação no jornal ”Mundo Português”

Sobre a autora Rosária Grácio



Rosária Grácio nasceu em 1965 em Angola. Desde criança manifesta interesse por ler e escrever histórias, e igualmente dedica-se à pintura e ao desenho artístico. Com apenas seis anos, ganha o Concurso de Natal de 1971, promovido pela Petrangol em Luanda, na Modalidade “A Melhor Carta ao Menino Jesus”. 


Em Portugal, desde 1990, realizou várias exposições de pintura especialmente por terras transmontanas de 1991 a 1999. Para cada um dos seus quadros, Rosária Grácio, sempre fez questão de lhes anexar um breve poema que a autora considera ser a alma e a personalidade das suas obras. Para alguns desses poemas, Rosária Grácio tem feito pequenos filmes com as imagens das respetivas obras no seu canal do Youtube - www.youtube.com/c/RosáriaGrácio.


Em 2015, licenciou-se em solicitadoria. Por essa altura, por causa de uma deficiência visual progressiva optou por voltar a colocar a arte em sua vida.

Com o marido Paulo Caetano nasce o Gráccio Caetano Atelier, realizando duas exposições de pintura em 2016 no Porto. A pintura Gráccio Caetano tem um caráter tridimensional, permitindo que seja também tocada por pessoas com deficiência visual. Os seus trabalhos podem ser melhor conhecidos em www.gracciocaetano.com.


Atualmente, Rosária Grácio também se dedica a escrever histórias, baseadas em experiências pessoais, porque a vida é sempre a melhor contadora de histórias.

Em julho de 2017 publica o livro “BIA POR UM TRIZ”, uma história baseada em factos reais, mais precisamente, a partir da história de uma das gatas da autora: Bia. Aliás, a Bia foi o modelo usado para as ilustrações feitas por Gráccio Caetano para este livro. 


Para desmitificar muitos dos mitos que ainda existem sobre a personalidade dos gatos, Rosária Grácio também criou um blogue dedicado à "Bia por um Triz" - livrobiaporumtriz.blogspot.pt - onde partilha um pouco da convivência com os seus gatos em sua vida. 


Na vertente da poesia, um dos meus poemas foi selecionado para fazer parte da Antologia de Poesia "Entre o Sono e o Sonho" - Volume 8 – 2017, da Chiado Editora, cuja a apresentação se realizou no dia 30 de setembro de 2017 no Teatro Tivoli BBVA em Lisboa. O poema selecionado tem o título de "Nas ruas virtuais da solidão…"  onde a autora colocou um pouco do que é o sonho em mãos que avançam ou que se deixam parar pelo sono. Este poema foi escrito há cerca de dois anos, quando me deparava com esta luta diária na readaptação à sua deficiência visual progressiva.

Para além da poesia e de histórias para crianças, a autora Rosária Grácio também tem vários escritos que aos poucos serão colocados neste blogue e alguns deles serão publicados no seu canal de Youtube em formato de pequenos filmes.

Para saber mais sobre a deficiência visual de Rosária Grácio conheça o seu blogue - vercombengalaverde.blogspot.pt - onde a autora partilha um pouco das suas dificuldades como deficiente visual. 







Eu uso Bengala verde





Hoje a Associação da Retinopatia de Portugal, fará uma apresentação pública nas ruas de Lisboa sobre a bengala verde. 

Eu não pude estar presente por razões de saúde mas desde já convido a todos a acompanhar todos os acontecimentos de hoje no decorrer deste grande dia. Eu uso bengala verde!!!! 

E se apoias esta ideia e estás em Lisboa vai para as ruas e junta-te a esta manifestação!!!!!


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Pra quê ao vivo





Será que a cegueira impedirá alguém de se dedicar às artes?  

Sara Bentes mostrou-me que é possível e esta música é exactamente o que eu, como baixa visão vivo e sem complexos, pois é possível viver e se readaptar mesmo e apesar de estarmos a perder a visão...

sábado, 4 de novembro de 2017

Um livro e a biblioteca inclusiva no Centro de Reabilitação de Areosa




No dia 18 de Outubro de 2017, apresentei o meu livro “Bia por um triz” no Centro de Reabilitação da Areosa no âmbito de um workshop dedicado à bengala Branca.

Foi neste Centro de Reabilitação de Areosa que reaprendi a lidar com a minha deficiência visual. Aqui me deparei com uma realidade: eu não era a única a sofrer de baixa visão.


Quando optamos por reescrever a nossa história, precisamos de também ouvir e conhecer histórias reais de pessoas que lutam e prosseguem a sua vida social e profissional, apesar da sua cegueira, seja esta cegueira na forma progressiva ou total.


Quando me conscientizei de que não era a única nesta luta com a deficiência visual, ouvindo as experiências de vida dos outros que também vivem e sentem o que é a perda da visão na sua vida, e partilhando, sem tabus, a minha história e dificuldades no dia a dia, com a minha deficiência visual, penso que foi um dos meus mais importantes passos que dei no processo da minha readaptação.


E nesse dia da apresentação do meu livro, tive novamente a oportunidade de conhecer outro exemplo de como é, na vida real, este readaptar, diante de uma deficiência visual.


Eu não era a única convidada para falar neste dia.

Aliás, ainda antes da minha apresentação, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente a outra convidada que iria falar naquele dia, a Dra. Susana Vale, cega total, que trabalha atualmente na Biblioteca Municipal de Vila Nova de Gaia, mais especificamente, é ela uma das responsáveis do Serviço de Leitura Especial desta mesma biblioteca. Este Serviço de Leitura Especial - Gaia Inclusiva está acessível a todo Portugal na distancia de um email ou contacto telefónico. 


Por meio deste serviço de Leitura Especial, as pessoas com deficiência visual, como eu, têm a oportunidade de ter acesso a áudio ou outra forma mais adequada, para continuar a ler livros, sejam de que tema for. Desde livros de romances a livros de receitas, de livros de poesias a livros históricos, enfim, uma biblioteca de oportunidades de leitura em formato acessível conforme as necessidades e possibilidades de cada um.


Para além do acesso a livros, semanalmente existe um momento de poesia que é partilhado por email com áudio disponível e acessível em vários formatos. Posso dizer que este poema em áudio me tem proporcionado um ótimo momento de relax ao fim de semana porque a poesia é sempre uma oportunidade para ganharmos asas para além da nossa própria realidade, e também assim conhecermos os sentimentos de um poeta que na verdade fala também um pouco do que vive todo o ser humano pela rima ou não rima.


Quando começamos a cegar, pensamos que tudo à nossa volta deixa de rimar e de ter sentido. Na poesia da vida, por vezes as frases não rimam umas com as outras. Aliás, há quem diga que os melhores poemas são os que não rimam, ou cujas as rimas não estão ali milimetricamente colocadas.

A baixa visão é uma daquelas poesias que, a princípio, não rimam. Porém, como qualquer poesia, é preciso trabalhar nas palavras para que elas cantem vários tons, como que um músico a compor uma melodia.


Viver com a baixa visão é trabalhar todos os dias na readaptação porque a baixa visão, por vezes, está em progressão. No meu caso, por exemplo, nem sempre vejo as coisas da mesma maneira, às vezes mais focadas, outras vezes não. Quando a cegueira ainda não é total como no meu caso, lidar com esta perda gradual exige uma contínua readaptação a cada dia, a cada situação, porque a vista vai perdendo aqui e ali, certas potencialidades, e temos de estar preparados para estas perdas.


A meu ver, é muito importante fazer esta distinção entre a cegueira total e a baixa visão. São identidades diferentes porque exigem atitudes diferentes da parte dos deficientes visuais no seu dia a dia.


Enquanto que um cego já não vê nada e só tem de contar com os demais sentidos, a pessoa com baixa visão, ainda pode utilizar o resto de visão que ainda detém, porém, ao mesmo tempo precisa ir compensando a perda visual com os outros sentidos.


À medida que cegueira progride, mais e mais a pessoa com baixa visão irá necessitar de fazer um reprocessamento de tudo o que supostamente ainda vê.

Baixa visão é uma espécie de escalada até a cegueira total. Nesta escalada, a cada passo, menos vemos o que ficou para trás. Só nos resta subir, sentir sem visão, perceber sem ver.


Deixo abaixo mais pormenores sobre o Centro de Reabilitação da Areosa e a Biblioteca Municipal de Gaia – Serviço de Leitura Especial, para quem possa estar interessado em mais pormenores sobre estes serviços, e porque não, para ser divulgado entre os nossos conhecidos, para que mais pessoas que têm a mesma deficiência que eu, possam ser ajudadas a lidar com a baixa visão no seu dia, e também  continuar a ler bons livros, pois a vida não acaba com a baixa visão, antes prossegue de uma maneira totalmente nova.


E por falar em livros, ao final da apresentação, a Dra. Susana Vale solicitou-me para que também o meu livro "Bia por um Triz" fizesse parte da Biblioteca Municipal de Gaia - Serviço de Leitura Especial, o que foi uma honra para mim e ainda mais que em breve, também o meu livro "Bia por um triz" poderá ser lido por pessoas com deficiência visual.


A história da minha gata Bia também é parte da história da minha experiência com a baixa visão, que aos poucos fui descobrindo e fazendo parte do meu percurso de adaptação.

No próximo artigo irei partilhar um pouco mais em pormenor de como uma gata de rua foi capaz de me ajudar na aceitação da minha deficiência visual.



Neste artigo deixo publicamente um agradecimento muito especial ao Centro da Reabilitação de Areosa e à Dra. Susana Vale. Mais uma vez, aqui aprendi que ainda há muito a se fazer e a prosseguir, apesar da deficiência visual. 



Gaia Inclusiva – Serviço de Leitura Especial
Biblioteca Municipal de Gaia

O espaço da Gaia Inclusiva – Serviço de Leitura Especial da Biblioteca Municipal de Gaia é uma entidade produtora e difusora de materiais de leitura em formatos acessíveis: áudio, braille e digital. Para além dos deficientes visuais, idosos, acamados e incapacitados físicos podem aceder a este serviço, pelo que devem contactar esta entidade para saber mais pormenores sobre o que é necessário para os obter. Eis alguns dos seus serviços: Leitura presencial, Empréstimo domiciliário, Leitura em voz alta, Digitalização, Gravação de Audi livros disponibilizados em CD (formato wave ou MP3), Edição da "Comunicar" - Boletim Digital e Dinamização cultural. Para mais informações deixo aqui os contactos:

Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia
Rua de Angola
4430-014 Vila Nova de Gaia
Geral: 223745670
Direto: 223745676
gaiainclusiva@cm-gaia.pt
Facebook: Biblioteca Municipal de Gaia
(Estes dados foram consultados no site da Câmara Municipal de Gaia no seguinte link:

O Centro de Reabilitação da Areosa, serviço do Instituto de Segurança Social, I.P., Centro Distrital do Porto, fica situado na Rua D. Afonso Henriques, 549, 4435-005, Rio Tinto. A sua Unidade de Reabilitação Funcional de Adultos é dirigida para ajudar as pessoas com deficiência visual adquirida, com cegueira ou ambliopia, com idade superior a 16 anos, do Norte do País.  Toda a intervenção desenvolve-se através do treino de técnicas específicas de Mobilidade, Braille, Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (com utilização de software específico para o PC Jaws, Abby Fine Reader e para o telemóvel), Actividades de Vida Diária.
Mais informações podem ser consultadas em: